Apiaká – Maytapu

Apiaká – Maytapu

Performance de Carla Jardim
Texto de Carla Jardim e Raphael Andrade

A performance Arte “Apiaká – Maytapu” procedeu a partir de encontros e conversas com os genitores da performista Carla Jardim, os quais apresentaram, para a surpresa da artista, a sua ancestralidade indígena. Na busca de uma narrativa de não apagamento de suas raízes fincadas pelos povos originários, Carla vai em busca de sua retomada, com o intuito de reagrupar e gerar outras teias de escuta e de pertencimento, para que, dessa forma, ela pudesse se reconhecer e se aprofundar na cadeia genética até então desconhecida, invisibilizada e apagada de sua vivência.

Para isso, a performer precisava mergulhar, encharcar-se da memória dos seus antepassados, em vista de mergulhar nas águas da certeza da sua ancestralidade. Esse fluxo de reencontro com seus ancestrais e de si mesma, foi desembocado no rio que a levaria a sua bisavó. A mãe de seu pai compartilhou com ela sobre seus descendentes, sobre o respeito às regras do mundo do encante e abriu os olhos de sua bisneta referente ao preconceito, à intolerância religiosa e à violência que, infelizmente, ainda rodeia os povos e territórios indígenas.

Nesse prisma, a artista além de ter coletado dados, possuir um maior arcabouço teórico sobre os povos originários de sua família, propôs construir saberes que foram apagados/silenciados e que pudessem passar para os seus familiares, na esperança que as vozes dessa ancestralidade ecoassem sobre os que desconheciam essa potencialidade genealógica.

Mas a performista não quis que esses ensinamentos e essa retomada às origens permanecessem apenas no seio familiar e, à vista disso, ela transmutou esses preceitos, vivências e ressignificados de vida em forma de arte performática. Um dos teóricos que potencializou esse trânsito de ideias foi Richard Schechner, ao teorizar sobre a noção do “comportamento restaurado”, pois segundo ele, tais comportamentos são vivos e também incluem:

[…] uma vasta gama de ações. Todo Comportamento é comportamento restaurado – todo comportamento consiste em recombinações de pedaços de comportamento previamente exercidos. Os modos como os pedaços de comportamento foram criados, achados, ou desenvolvidos, pode ser desconhecido ou oculto, elaborado, distorcido pelo mito ou pela tradição (SCHECHNER, 2012, p. 34).

Essa recombinação de pedaços de comportamentos restaurados foi pensada por Carla a partir dos elementos culturais importantes de cada etnia por ela pesquisada, quais sejam: o povo Tupinambá, o povo Borari, o povo Kumaruara e o povo Maytapu, os quais utilizam a medicina ancestral como cura de seus povos. O cerne da performance foi potencializado por conta da lembrança da artista ao rememorar a sua tenra infância pois, desde pequena, ela foi curada na base dos remédios ancestrais passados de geração em geração. A performer relata que, aos dois anos de idade, teve uma complicação sistêmica da pneumonia, a ponto de ter ficado apenas suspirando e totalmente ‘mufina’, até que sua genitora fez para ela um remédio com folhas do ‘sabugueiro’, após ela beber da planta medicinal, vomitou uma espécie de gosma e, sem demora, melhorou da afecção que se encontrava e teve uma das experiências mais significativas que perpassou o seu corpo e, segundo a artista, “foi como retornar à vida”!

Alinhados a essas lembranças, Carla pensou que a sua ação performática, que seria apresentada na disciplina “Performance”, ministrada pela professora Dra. Karine Jansen, detivesse como potência a realização de um ritual, pensado à maneira de Victor Turner, ao associar emoções mobilizadas no momento presente às memórias de experiências dos seus antepassados, articulando-as e renovando-as na ação performática. Esse encadeamento poderia possibilitar novas interpretações do mundo social, permitindo à própria artista e aos espectadores/participantes da performance, assimilar aspectos da simbólicos da religiosidade indígena, mas também do desconhecido, o que viabilizaria, certamente, transformações subjetivas.

Nessa perspectiva, A artista pensou a visualidade da performance “Apiaká – Maytapu”, que seria apresentada no auditório da Escola de Teatro e Dança da UFPA – ETDUFPA, consonante às cores do festival de Sairé, do povo Borari, com suas fitas coloridas pregadas nas roupas, na coroa e no semicírculo que carrega a crença do referido povo. Contudo, as fitas de cetim foram amarradas atrás da artista, numa espécie de portal e, em frente delas, haviam algumas mensagens de reinvindicação, tais como: “A história começa antes de 1500”, “Não ao Marco temporal”, “Ancestralidade indígena”, “sem demarcação não há democracia”, dentre outros. Importante frisar que em tempos de desmontes na educação indígena, na luta dos povos originários perante a defesa de seus direitos territoriais, culturais e de educação, não há como ficar indiferente ao desmonte de educação no Pará, haja vista que a política de esvaziamento da educação já entrou em vigor. Logo, a performance em questão intenta, a partir da visualidade, aludir que devemos nos atentar e, principalmente, lutar contra a exploração das terras, do racismo e da violação de direitos dos povos indígenas.

Chegada a hora da ação performática, a performer se apresentou com seu rosto e seu corpo pigmentado com os tons preto e vermelho, em alusão ao grafismo indígena presentes nas etnias do Baixo Tapajós. À frente da artista, paramentada com saia branca até os pés, blusa sem manga preta e com um colar de cor verde, havia uma cadeira e um cesto, este último portava duas garrafas dentro. Ao começar a movimentação da ação-ritual, a artista se ajoelha em frente à cesta que contém os líquidos do remédio natural, como uma prece aos deuses e, logo depois, despejou o supradito líquido em uma vasilha e o ofereceu aos espectadores/participantes.

Durante a performance, foi possível sentir a sinergia do ambiente, o auditório estava com uma energia curadora, confortável, Anauê, espiritual, suscitando uma experiência de “communitas”, como bem refere, Turner (1986): “um senso de harmonia com o universo se evidencia e o planeta inteiro é sentido como uma communitas” (TURNER, 1986, p. 43). Reverberando essa análise de communitas, Carla relata que uma das participantes da performance sentiu a energia do espaço e que, no dia seguinte da apresentação da performista, havia melhorado de sua enfermidade, principalmente por ter tomado o remédio natural feito por sua mãe e por ela, amalgamado a partir dos saberes tradicionais perpassados por mulheres indígenas.

Portanto, a ação ritual do ato da performance carrega além do aparato para ressignificar e fazer (re)conhecer a sua ancestralidade por intermédio do rio familiar, muitas camadas de conhecimento na práxis, como o fator medicinal relatado anteriormente. Mas também desvela, nas entrelinhas, as ameaças à preservação cultural dos povos originários, sobretudo aos fatores externos que provocam uma erosão do conhecimento, por conta dos preconceitos e estigmas quanto às práticas de medicina indígena que são diferentes do saber ocidental.

REFERÊNCIAS

SCHECHNER, Richard. Performance e antropologia. Rio de Janeiro: Mauad, 2012.

TURNER, Victor. “Liminal to Liminoid, in Play, Flow, RitualAn Essay in Comparative Symbology”. In TURNER, Victor. From Ritual to teatre: e Human Seriousness of Play. New York: PAJ Publications. 1986.

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