Há algo em mim entranhado

2026 | Vol IV

Há algo em mim entranhado

Performance de Maya Ataide Rodrigues
Texto e fotos de Danielle Cascaes

Na performance “Há algo em mim entranhado”, Maya Ataide Rodrigues transforma o próprio corpo em lugar de inscrição, fazendo das palavras aquilo que atravessa, permanece e, muitas vezes, não encontra outra forma de ser dito. A partir de um texto escrito sobre a dificuldade de expressar o que sente, a artista constrói uma fotoperformance em que palavras são inscritas sobre diferentes partes de seu corpo, enquanto permanece deitada sobre dois sacos de carvão. “Palavras que fervem no meu estômago e voltam como vômito, mas ficam presas na minha garganta como brasas de carvão”, escreve Maya.

A performance ocupava a entrada da Escola de Teatro, próxima à escada, um espaço cotidiano de passagem que se transformava em lugar de encontro e interação. Muitas fotografias da artista eram dispostas para que o público pudesse escrever sobre elas, deixando também suas próprias palavras, pensamentos e sensações. O gesto fazia da fotografia uma superfície aberta à intervenção, aproximando as inscrições do corpo de Maya das experiências daqueles que passavam por aquele espaço.

Em seu relatório, Maya afirma que as palavras sempre tiveram grande impacto em sua vida e que, quando sua mente se encontrava cheia delas, sentia dores no estômago, como se aquilo que não conseguia dizer permanecesse queimando dentro do corpo. Na fotoperformance, essa sensação se materializa. Deitada sobre o carvão, com palavras espalhadas pelo corpo, a artista cria uma imagem em que aquilo que era interno passa a ocupar a superfície. Como escreve: “Meu corpo quer expelir, fisicamente, a dor da minha mente”.

A partir da rede teórica da performance, Schechner aponta para a “especial ordenação do tempo” e para o “valor especial atribuído aos objetos”, elementos que ajudam a compreender os deslocamentos produzidos pela ação. O espaço de passagem da escola se transforma em espaço performativo, enquanto fotografias, carvão, palavras e inscrições deixam de cumprir apenas suas funções habituais e passam a carregar outros sentidos. Em diálogo com Pavis, a performance também tensiona as fronteiras entre corpo e imagem, experiência íntima e experiência coletiva, obra e vida cotidiana, fazendo do público parte ativa da construção da ação.

Ao final, as palavras deixadas pelo público se juntam às palavras inscritas no corpo de Maya e às fotografias. Depois de retiradas da exposição, elas são queimadas do lado de fora da escola. O fogo, que inicialmente aparece como imagem daquilo que corrói e permanece entranhado, ganha outro sentido: torna-se possibilidade de transformação. Aquilo que estava preso no corpo encontra uma forma de sair, deixando no espaço não apenas a memória de uma experiência, mas também as marcas daqueles que aceitaram escrever sobre ela.

REFERÊNCIAS

PAVIS, Patrice. Dicionário da performance e do teatro contemporâneo. São Paulo: Perspectiva, 2017.

PEREIRA, Antonia. Performance e ritual: questões sobre o corpo e a representação. 1995.

RODRIGUES, Maya Ataide. Relatório de Performance: “Há algo em mim entranhado”. Belém: Universidade Federal do Pará, Licenciatura em Teatro, 2026.

SCHECHNER, Richard. Performance Studies: An Introduction. 3. ed. New York: Routledge, 2013.

SCHECHNER, Richard. The Future of Ritual: Writings on Culture and Performance. New York: Routledge, 2002.

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *