O ritual do apagamento

2026 | Vol IV

O ritual do apagamento

Performance de Kadu Chaves
Texto de Kadu Chaves e Vandiléia Foro
Fotos de Danielle Cascaes

A performance se inicia a partir do momento em que o performer começa a trazer relatos de sua infância, juventude e adolescência, enquanto estudante de escola pública, dentro desse tempo, ele começa a ter memórias mais vívidas do Ensino Médio, justamente na época em que ele começou a querer gostar do seu cabelo, foi quando as pessoas começaram a zombar dele, falavam que o seu cabelo ‘era palha de aço, era bombril’, como diz Kadu: “Enfim, aquelas coisas todas que são absurdas, mas, dentro desse preconceito, eu comecei a entrar numa crise de identidade”.  

Ele não sabia que o seu cabelo era bonito, então começou a ver métodos de como embelezá-lo, só que esses métodos não eram muito agradáveis, por mais que na época achasse lindo, maravilhoso, que era alisar o cabelo, e quando a raiz crescia crespa ele alisava de novo, então ele diz que isso foi lhe moldando e, de uma certa forma, lhe tirando toda a identidade que tinha, porque antigamente ele gostava muito do próprio cabelo, mas depois começou que começou a passar por situações de preconceito, passou a detestar o seu cabelo, por isso recorreu ao alisamento.  

Kadu também conta que além das falas diretas ao seu cabelo, também enfrentou outras formas de preconceito, tendo em vista que na escola faltavam políticas públicas para combater o preconceito vivenciado, porque ele já tinha reportado essas questões aos professores, àdiretoria, só que ninguém fez nada, apenas falavam que era coisa de adolescente.  

Isso trouxe para ele muitas crises, e até crise de ansiedade, por considerar que não era perfeito aos seus olhos por conta do cabelo, e ele diz que isso o arruinou de uma certa forma, ao ponto de passar entre 3 e 4 anos alisando o cabelo. Só que depois de um tempo, ele não tinha mais como alisar porque o cabelo estava ficando muito frágil e aí ele não conseguia alisar porque ele caía, então não precisava deixar crescer.  

A sua visão de si começou a mudar quando a sua irmã mais nova tinha entre 5 e 7 anos, e ele achava lindo o cabelo dela que era e é bem crespo, só que no seu próprio cabelo ele não conseguia ver beleza, por conta das situações que já tinha vivido até então. Com o tempo, ele se perguntava por que que algumas coisas eram bonitas nas pessoas, mas não nele. Então começou a pesquisar jeitos, cabelos diferentes e muitas outras coisas, ele não entendia também a questão da sua identidade como pessoa preta, não entendia muito bem essa relação da cor da pele, como diz: – “Porque para mim, antigamente, quando não era muito que o que fazia uma pessoa preta ser uma pessoa preta era apenas a cor de pele, mas não, tem muitas coisas que envolvem a negritude, muitos tons de pele negra e tudo mais”, segundo ele, começou a entender tudo issodentro da faculdade, e assim teve início o seu processo de aceitação, ao ver/ouvir as pessoas falando de si, de seus corpos, da sua pele e dos seus cabelos.  

O processo de reconhecimento e aceitação lhe trouxe uma liberdade e um respiro muito grande, porque ele aceitando o seu jeito, o cabelo como era, se sentiu livre para fazer o que queria, deixou o cabelo crescer, pintou, deixou ficar black, enrolado, normalmente, ele fazia com dedoliss que ficava mais pra frente, ficava black, ele foi vendo múltiplas possibilidades que podia fazer e experimentar.  

Kadu Chaves conta que quando começou a fazer a performance na disciplina da Profa. Dra. Karine Jansen, da Escola de Teatro e Dança da UFPA, ainda estava muito perdido sobre o que queria fazer, aí foi pesquisar, ler livros, ver vídeos na internet que poderiam auxiliar, vídeos aleatórios que traziam ideias interessantes, e foi em um desses vídeos do Instagram que ele assistiu ao relato de uma jovem que falava da sua experiência como pessoa preta e do seu cabelo, aí ele começou a pensar sobre isso, pois esse relato lhe comoveu muito, justamente por teremvindo as lembranças dos preconceitos que havia passado com relação ao seu cabelo. Depois disso, pensou: “por que não falar sobre isso e trazer isso como uma forma de protesto?” Seu intuito era trazer isso para incomodar as pessoas e algumas pessoas, de fato, se sentiram incomodadas, outras acharam engraçado. E aí ele queria entender o motivo de ter sido engraçado, “será que é por que já é um costume as pessoas pretas passarem por esse tipo de preconceito? É igual falar que pessoa gorda só serve para fazer comédia e quando ela fica magra ela não serve mais? e aí fiz essa performance para protestar, para fazer as pessoas pensarem, repensarem sobre isso, então eu não sei se atravessou as pessoas de uma certa forma ou não, mas esse foi o resultado”. 

Sim, Kadu Chaves, a tua performance atravessou a minha memória e trouxe o incômodo que eu senti ao ouvir uma pessoa reclamando do cabelo da minha mãe. Acho que eu tinha 12 anos, quando eu e ela estávamos descendo a escada rolante da antiga Yamada e uma mulher atrás da gente jogou indireta para minha mãe, de que pessoas com o cabelo como o dela tinham que andar com ele preso. Amo o cabelo da minha mãe, e na época gostava porque achava ela parecida com a Gal Costa e a Maria Bethânia, com seus cabelos, crespos, cheios, esvoaçantes e livres. Me incomodou demais o preconceito dessa mulher com a minha mãe. Tua performance me motivou a querer falar e refletir sobre não deixar que os outros tirem a nossa liberdade, a nossa identidade e o nosso bem-estar com o nosso corpo. 

Foi marcante te ver esfregando o teu cabelo nas panelas, pois essa era a ação, esfregar o cabelo nas panelas, como se estivesse ariando, pois isso remete aos preconceituosos que chamavam para os cabelos crespos de bombril. 

Sua performance não me incomodou e sim me fez refletir a importância de trazer essa ação para desconstruir preconceitos, e para quem tem o cabelo crespo ter força e conhecimento para combater o racismo, sua performance é combatente, grita por liberdade, pois trazer o cabelo como enfrentamento é também “um dos caminhos para a compreensão da identidade negra em nossa sociedade” (Gomes; Duque-Arrazola, 2018, p. 187). 

“O ritual do apagamento” é uma performance, um ato político que propõe o enfrentamento ao olhar daqueles que querem ditar e colonizar nossos corpos, e sim, ela é esse caminho através da arte, de compreensão da identidade negra, a partir também do autoconhecimento de si em comunhão com outros iguais, pois quando se traz a público esta causa, acredito que outras pessoas que sofreram racismo irão abraçar o ato e juntos combater e fortalecer a luta em busca de respeito e direitos. 

Performances como a de Kadu Chaves, que denunciam e que trazem também conhecimento e memória, são importantes, como ensina a pesquisadora Diana Taylor (2013), que reflete sobre a performance como “atos de transferências vitais, transmitindo conhecimento, a memória e um sentido de identidade social por meio do que Richard Schechner denomina ‘comportamento reiterado'” (Taylor, 2013, p. 27). 

Comportamento reiterado ou restaurado, ou seja, uma ação que se repete, por mais que tenha algumas diferenciações. Kadu traz, em sua ação performada, a memória de preconceitos vivenciados, mas numa perspectiva de denunciar as violências que sofreu e que percebe que outras pessoas também sofrem; transfere acontecimentos vividos e com isso nos permite refletir sobre o quanto é preciso denunciar ações preconceituosas, bem como, nos faz refletir sobre a importância de ter conhecimento sobre o assunto para resistir e enfrentar sistemas que tentam nos colonizar e atacar nossos corpos, nossas histórias e nossa identidade. 

É interessante e importante o depoimento de Kadu, pois um dos lugares que ele enfrentou o racismo foi no ambiente de ensino; e sua performance foi criada e apresentada em uma escola de formação de profissionais, especificamente de artistas e professores. Criar e apresentar esta performance nesse lugar é também expor, problematizar e trazer para o debate estes espaços sociais que muitas vezes omitem questões que estão em pauta na sociedade. Rodrigo Severo dos Santos (2026), em seu artigo a respeito de performance negra, fala que: “A performance negra está comprometida com o local geopolítico e corpóreo-político da pessoa que fala, desvelando o particularismo por trás do universalismo” (Santos, 2026, p. 86).  

Nesse sentido, a performance de Kadu dialoga com o pensamento de Santos (2026, p. 89): “Os(as) artistas vão desenvolver com suas ações um material performático crítico, perturbador e provocador que revela as diversas formas de opressões de raça, gênero, classe e sexualidade sofrido por diferentes grupos historicamente discriminados”.  

A partir do depoimento de Kadu, obtido em diálogos que tivemos, quando conta que assistiu trabalhos e estes contribuíram para a sua ação performativa, percebe-se a sua força, a qual traz na performance e que pode ajudar outros performers a colocarem os seus corpos dialogando com o pensamento crítico e fortalecendo a luta contra as opressões vividas. 

REFERÊNCIAS

GOMES, Cláudia Ferreira Alexandre; DUQUE-ARRAZOLA, Laura Susana. Consumo e Identidade: O Cabelo Afro como Símbolo de Resistência. Revista da ABPN, v. 11, n. 27, p.184-205, nov 2018 – fev 2019. Disponível em: https://abpnrevista.org.br/site/article/view/496/582. Acesso em: 14 ago. 2026. 

SANTOS, Rodrigo Severo dos. ONDA NEGRA: notas sobre o conceito de Performance Negra. Revista Sala Preta, v. 25, n. 1, p. 81-106, 2026. Disponível em: https://revistas.usp.br/salapreta/pt_BR/article/view/241273/221589. Acesso em: 14 ago. 2026. 

TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório: performance e memória cultural nas Américas. Belo Horizonte: EdUFMG, 2013. 

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