Do Avesso

2026 | Vol IV

Do Avesso

Do Avesso: Performar a insurgência

Performance de Ariane Liara
Texto de Larissa Latif

Do Avesso (2026), de Ariane Liara, propõe uma reflexão sobre as violências cotidianas sofridas pelos corpos transfemininos. A artista aciona a sua própria experiência como uma travesti para falar não apenas por si própria, mas por toda uma coletividade de pessoas que “precisam sair de suas casa e enfrentar o espaço de guerra que é a rua, o lugar onde colocam nossos corpos em vitrines e se sentem no direito de despejar todas as suas frustrações, invadir nossos espaços e tocar-nos como se fossemos apenas pedaços de carne”. 

A performance foi realizada na calçada da porta principal da Escola de Teatro e Dança da UFPA (ETDUFPA), durante a noite, no horário das aulas da Licenciatura em Teatro. Por se tratar de um importante cruzamento entre duas ruas movimentadas, o trabalho atraiu os olhares de um público mais amplo do que os membros da escola, cumprindo a função desejada de “provocar curiosidade nas pessoas que por ali passavam e colocando-os neste lugar, da maneira em que os enxergo todos os dias, como se estivesse despida, exposta e entregue a violência moral, verbal e física”. 

Liara, de pé, trazendo nas mãos uma vasilha com sangue artificial e uma placa com a frase: “suje suas mão também”, vestia apenas um top e um short brancos, com uma faixa vermelha que passava pelo ombro. No início algumas pessoas, colegas da ETDUFPA, se aproximavam e espalhavam a tinta pelo corpo da performer, que, algum tempo depois estendeu-se na calçada. Seu corpo como que caído no chão, sujo de sangue, criava uma mistura de susto, mal-estar e curiosidade em muitos transeuntes. Uma senhora esteve muito tempo a olhar. Parecia intrigada e comovida ao mesmo tempo. Alguns estudantes da escola também se demoravam, e, como chovia, um grupo acercou-se com os guarda-chuvas abertos. As pessoas iam e vinham, o que fazia com que o espaço da performance se tornasse mutável, dinâmico. As reações do público integraram-se à obra. 

Nos momentos em que ninguém se acercava, a performer enfrentava mais vulnerabilidade, por estar com o corpo exposto, na rua, com pouca roupa e aparentemente ferido. Para quem passava nos carros, a reação mais frequente era, logo depois de cruzar a rua, voltar a cabeça, como se algo inesperado tivesse sido visto. Alguns demonstraram empatia e, diminuindo a marcha dos caros, chegaram a baixar os vidros e perguntar se ela estava ferida. Nós, que a acompanhávamos, explicávamos que se tratava de uma performance artística. 

Ariane Liara considera que os corpos travestis são “espetacularizados sem autorização, tratados como objetos, pedaços de carne”. Com efeito, o Brasil é o país que mais mata travestis no mundo. A dessubjetivação sofrida pelas pessoas transgênero resulta numa espécie de autorização da violência tanto física quanto moral imposta a elas. Ao tratarem-se os seus corpos como objetos e não como sujeitos, incorre-se numa construção da travestilidade como uma forma aberrante, abjeta, não humana de existência. Daí, humilhar, espancar, matar, passa a fazer parte ativa da construção e reconstrução cotidiana da norma binária de gênero, central na reprodução do heterociscapitalismo.  A tolerância da sociedade brasileira para com os assassinatos de pessoas trans e travestis parece ser maior e mais facilmente compreensível do que o reconhecimento dessas pessoas como seres humanos.

Isso revela um padrão estrutural de violência baseada no gênero e na classificação binária de seres não mais entre homens e mulheres, apenas, mas entre humanos e não humanos, correspondendo a cisgeneridade a um dos critérios inclusivos na categoria humano e a transgeneridade a um critério excludente. É importante que se diga que a violência contra pessoas trans e travestis não é resultante da transgeneridade, como uma consequência socialmente aplicável a um desvio. Ao contrário. É a norma binária e heterocisnormativa que institui de forma violenta uma classificação que, socialmente repetida à custa de um sistema complexo de controle e disciplinas do corpo de bio e necropolíticas (Butler, 2006; Foucault, 2008; Mbembe, 2018) normaliza-se e passa a ser compreendida como natural. Numa palavra, para que exista a transgeneridade como desvio, é preciso que se institua a cisgeneridade como norma, e vice-versa, pois apenas em relação a um parâmetro de normalidade é possível construir o diferente, o outro, o anormal. 

Em síntese, o outro, o diferente, o anormal, sustentam, às custas da vulnerabilidade e precariedade impostas às suas vidas a centralidade, a norma, aquilo que, sendo instituído na esfera da cultura, toma-se como natural. O que escapa ou se torna convenientemente imperceptível nesse processo é a natureza performativa da cultura, ou seja, aquilo que se experimenta como normal e a que se procura atribuir a uma essência natural, supostamente derivada de aspectos biológicos e validada na esfera simbólica por uma moral sexual reprodutiva, consiste, na verdade, no apagamento das relações de poder que sustentam a instauração violenta do que coletivamente reconhecemos como normalidade por meio da repetição. 

Judith Butler (2006) critica a noção de identidades estáveis e essenciais, entendendo-as como efeitos da repetição normativa de ações performativas que fazem parecer naturais comportamentos e ideias culturalmente produzidos. O poder mantém-se por essa repetição, mas nela reside também a possibilidade de falha, deslocamento e emergência de formas novas e subversivas. Do mesmo modo, a liberdade não preexiste ao seu exercício, mas passa a existir no próprio ato, razão pela qual tanto o poder quanto a liberdade possuem caráter performativo. Nessa perspetiva, o sujeito não existe antes da ação e da linguagem: é socialmente produzido por relações de poder que, embora o constituam, também podem falhar e gerar efeitos inesperados. Butler distingue ainda performance e performatividade: ambas envolvem repetição, mas, enquanto a performance utiliza regras e convenções para produzir significado e pode ser entendida como algo que um sujeito faz, a performatividade produz a própria inteligibilidade social do sujeito, tornando-o reconhecível em termos de género, raça e outras categorias culturais. Assim, a performance relaciona-se à produção de sentidos socialmente partilhados, enquanto a performatividade se refere às políticas e micropolíticas que constituem os sujeitos.

Richard Schechner (2002), recorrendo a Erving Goffman, entende a performance como prática que marca identidades, reorganiza o tempo, transforma o corpo e produz narrativas. Performances artísticas, rituais e cotidianas são constituídas por “comportamentos restaurados”, isto é, ações codificadas, treinadas, praticadas e transmissíveis, incluindo os próprios comportamentos do cotidiano, aprendidos ao longo do tempo. Ao abordar os rituais como performance, Schechner (2002) apoia-se em Victor Turner e nas noções de estrutura, antiestrutura, liminaridade e communitas. Na situação liminar, a estrutura é temporariamente suspensa, abrindo espaço para a dissolução da ordem, que pode ou não ser restaurada pelo ritual. 

A liminaridade corresponde a uma situação em que a estrutura se suspende, abrindo espaço para a dissolução da ordem, que pode ou não ser posteriormente restaurada. Perspetivas contemporâneas como a complexidade, em Morin, e a organicidade, em Maffesoli, permitem compreender ordem e desordem como princípios complementares e sistemicamente relacionados, tornando possível observar simultaneamente continuidades e rupturas, permanências e transformações, tradições, emergências e reorganizações. Nesse quadro, a performance pode ser entendida como ação corporal significativa, individual ou coletiva, realizada a partir de comportamentos codificados e capaz de instaurar um espaço-tempo próprio. Quando esses códigos anteriores são retomados, renovados e recriados, a ação assume uma dimensão ritual; quando os transforma e produz novas possibilidades de sentido, aproxima-se do poético. A criatividade implica, assim, risco, imprevisibilidade e abertura ao que escapa à regra, fazendo da experiência performativa um processo de integração e desintegração de ordens, sentidos e formas de existência (Latif, 2005).Na performance de Ariane Liara, a intencionalidade da produção de sentidos na esfera artística procura revelar o que está normativamente oculto e naturalizado na performatividade cotidiana. Assim, vemos que a reprodução ou restauração de comportamentos pode tanto ser experimentada como norma cega, que nos torna inteligíveis dentro de sistemas prévios de legibilidade, quanto como desvio que abre outras possibilidades de sentidos ao revelar o que se oculta sob as camadas de normatividade naturalizada. A performer propõe seu próprio corpo como um corpo-resistência. Podemos ir um pouco mais longe e considerar um corpo-insurgência, que não apenas resiste, mas também procura, ao desvelar as violências pela repetição do cansaço e da vulnerabilidade, desestabilizar uma ordem fundada na violência, uma necropolítica.

REFERÊNCIAS

BUTLER, Judith. Gender Trouble. 3a ed. New York: Routledge, 2006.

FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica. São Paulo:Martins Fontes, 2008.

MBEMBE, Achile. Necropolítica. Rio de Janeiro: N-1 Edições, 2018.

SCHECHNER, Richard. Performance Studies, Londres, Routledge, 2002

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