A foto-performance como repertório de memória e denúncia: Uma leitura de Íntimo, Público e Invisível
Performance de Elizandra Ferreira
Texto de Karine Jansen e Elizandra Ferreira
1. O corpo como arquivo vivo
Em O Arquivo e o Repertório, Diana Taylor (2013) critica a tradição ocidental por privilegiar o documento escrito como a única forma legítima de produção de conhecimento. Em contraposição a essa visão, a autora sustenta que determinados saberes não apenas desafiam a hegemonia da escrita, mas sobrevivem e se transmitem diretamente através dos corpos, gestos, rituais e performances.
Essa perspectiva oferece uma chave de leitura fecunda para Íntimo, Público e Invisível. Isso porque, ainda que a obra venha a ser apresentada por meio de fotografias, sua gênese não reside na imagem estática, mas na própria experiência corporal da performer. Trata-se de uma investigação que emerge da memória incorporada de episódios de compulsão alimentar e bulimia, convertendo uma vivência íntima em linguagem artística e denúncia política — movimento no qual memórias pessoais passam a atuar tanto como matriz da pesquisa quanto como gesto de contestação.
Sob a ótica de Taylor, portanto, esse corpo não se limita a representar uma história: ele constitui o próprio suporte em que essa memória permanece inscrita, de modo a transformar a experiência individual em patrimônio coletivo.

Fonte: Fotografia – Nayana Batista

Fonte: Fotografia – Nayana Batista
2. Performance como transmissão de memória
Para Diana Taylor, o repertório constitui um sistema de transmissão cultural estritamente baseado na presença, no qual se comunica aquilo que frequentemente escapa ao arquivo escrito, como afetos, traumas, violências e modos de existir. É sob essa premissa que se insere a foto-performance de Elizandra: longe de buscar uma mera narrativa ilustrativa dos transtornos alimentares, o trabalho produz conhecimento sensível por meio de ações corporais concretas.
A compressão do corpo pela fita adesiva, a projeção dos ossos, o sanduíche recheado de balões, o ato simbólico do expurgo e a transformação do próprio corpo em superfície de escrita não são meros recursos visuais, mas a própria corporificação desse repertório. Dessa forma, a performance atualiza a reflexão de Taylor ao tornar visível aquilo que o silêncio social insiste em ocultar.

Fonte: Fotografia – Nayana Batista

Fonte: Fotografia – Nayana Batista
3. Do íntimo ao público
O próprio título da obra anuncia uma operação fundamental — Íntimo → Público → Invisível —, cuja passagem pode ser articulada diretamente à luz da teoria de Taylor. Nessa trajetória, o íntimo diz respeito ao repertório individual, composto por memórias, traumas e vivências corporais. O público, por sua vez, constitui o momento em que esse acervo privado é externalizado e compartilhado. Por fim, o invisível remete às próprias estruturas sociais que sustentam e perpetuam os transtornos alimentares, tais como a violência estética, o patriarcado, a cultura da magreza e o disciplinamento dos corpos femininos.
Ao lançar luz sobre essas dimensões e publicizar tais experiências, a performance rompe com o que Taylor conceitua como o apagamento histórico das memórias corporais, permitindo que o corpo feminino deixe a posição de mero objeto de observação para assumir o protagonismo como sujeito ativo da narrativa.

Fonte: Fotografia – Nayana Batista

Fonte: Fotografia – Nayana Batista

Fonte: Fotografia – Nayana Batista
4. A fotografia como expansão do repertório
Um dos aspectos centrais da pesquisa reside na articulação entre presença e documentação. Embora a fotografia seja tradicionalmente tomada como mero registro documental, o trabalho demonstra que os registros fotográficos foram concebidos como parte constitutiva do próprio evento performativo — alinhando-se às formulações de autores como Philip Auslander, Erika Fischer-Lichte e Josette Féral.
A partir de Diana Taylor, torna-se possível adensar essa reflexão, haja vista que a autora recusa uma oposição maniqueísta ou absoluta entre arquivo e repertório, defendendo sua coexistência e contaminação mútua. Nesse sentido, as imagens de Íntimo, Público e Invisível não operam como registros passivos; constituem, antes, um arquivo que guarda os vestígios da ação e só reativa sua potência performática ao friccionar-se com novos espectadores. O arquivo se converte, assim, em um dispositivo ativador do repertório, no qual cada olhar reinscreve a experiência, atualiza a performance e instaura uma nova cadeia de transmissão da memória.

Fonte: Acervo Pessoal

Fonte: Acervo Pessoal
5. O espectador como coautor
Talvez o ponto de maior convergência com as formulações de Diana Taylor resida na etapa final do trabalho. Após a produção das fotografias, as imagens foram instaladas no pátio da Escola de Teatro e Dança da UFPA (ETDUFPA), acompanhadas por lápis de cor e giz de cera para que o público pudesse intervir nelas por meio de escritos e desenhos — uma abertura estética e política que transformou os espectadores em coautores dos sentidos da obra.Sob a visão de Taylor, a performance é definida como um acontecimento intrinsecamente relacional que rejeita a existência isolada e depende do encontro entre sujeitos. Nesse sentido, ao abandonar a postura contemplativa e inscrever suas próprias marcas no papel, o público produz um novo repertório: os espectadores convertem-se em performers e suas intervenções passam a integrar a própria dramaturgia do trabalho. Assim, a memória deixa de ser uma propriedade exclusiva da artista para se consolidar como uma construção efetivamente compartilhada.

Fonte: Acervo Pessoal

6. Performance e testemunho
Diana Taylor aproxima frequentemente os conceitos de performance e testemunho, postulando que testemunhar excede a mera narrativa verbal de acontecimentos traumáticos: implica, fundamentalmente, a partilha de uma experiência por meio da presença. Em Íntimo, Público e Invisível, essa dimensão testemunhal se concretiza na exposição de um corpo radicalmente vulnerável — o corpo que se deixa comprimir, marcar, projetar e expurgar simbolicamente.Longe de operar como simples registro da dor, cada imagem testemunha uma violência estrutural ao mesmo tempo em que resiste ativamente à sua naturalização. Por meio desse gesto, a performance opera uma transmutação decisiva: converte a vergonha em linguagem, o silêncio em discurso e o trauma em ação política.

Fonte: Acervo pessoal
7. Repertório e pedagogia
Em suas considerações, a pesquisa evidencia que a experiência artística se consolida também como um potente dispositivo para a formação docente, demonstrando a força da performance no tensionamento das pautas de saúde mental, corpo e vulnerabilidade nas práticas pedagógicas.
Esse desdobramento alinha-se diretamente às reflexões de Taylor, para quem a performance é produtora de conhecimento: longe de apenas comunicar conteúdos, ela ensina novos modos de perceber, sentir e agir no mundo. Ao expor sua trajetória, a artista articula uma verdadeira pedagogia da vulnerabilidade, na qual os espectadores não apenas apreendem a problemática dos transtornos alimentares, mas aprendem outras formas de olhar para o corpo, para a dor e para as estruturas sociais que produzem o sofrimento. A performance se afirma, desse modo, como um espaço de formação ética e sensível.
Assim, a teoria de Diana Taylor permite compreender Íntimo, Público e Invisível para além de uma investigação autobiográfica, projetando a obra como uma manifestação de conhecimento incorporado capaz de transformar memórias individuais em repertórios coletivos de resistência. O corpo da performer atua como arquivo vivo de vivências historicamente silenciadas, enquanto a instalação fotográfica amplia essa potência ao convidar o leitor-espectador a coautorar os sentidos do trabalho.Mais do que documentar uma dor, a foto-performance produz um acontecimento que se renova em cada novo encontro. É precisamente nessa capacidade de reativar a memória por meio da presença e do afeto relacional que reside sua máxima dimensão estética, pedagógica e política. Sob a perspectiva de Taylor, o trabalho confirma que o que é atravessado pelo corpo não se esvai: converte-se em repertório, circula no tecido social e gesta novas formas de consciência coletiva.
REFERÊNCIAS
AUSLANDER, Philip. A performatividade da documentação da performance. Urdimento, Florianópolis, v. 2, n. 35, 2019.
FÉRAL, Josette. Além dos limites: teoria e prática do teatro. São Paulo: Perspectiva, 2015.
FISCHER-LICHTE, Erika. The Transformative Power of Performance: A New Aesthetics. London: Routledge, 2008.
TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório: performance e memória cultural nas Américas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
TAYLOR, Diana. Performance. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
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