Vista a Camisa

2026 | Vol IV

Vista a Camisa

Vestir a memória: arquivo, repertório e comunidade na performance Vista a Camisa

Performance e texto de Karine Jansen
Fotos de Danielle Cascaes

A performance Vista a Camisa, apresentada por Karine Jansen no pátio da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (ETDUFPA), em 2026, propõe um gesto aparentemente simples: estender em um varal camisas de espetáculos produzidos pela instituição ao longo de trinta anos de magistério e convidar o público a recolhê-las, vesti-las e, ao fazê-lo, tornar-se parte da ação. No entanto, esse gesto ultrapassa a dimensão da lembrança afetiva para constituir-se como uma reflexão sobre memória, pertencimento e resistência. Ao vestir uma camisa, o participante não recebe apenas um objeto; ele incorpora uma história, reinscrevendo-se em uma comunidade de artistas, professores, técnicos e estudantes que fizeram da escola um espaço de criação e de defesa da arte pública. Essa perspectiva dialoga diretamente com os conceitos desenvolvidos por Diana Taylor. Em sua teoria da performance, Taylor questiona a centralidade do arquivo escrito como única forma legítima de preservar a memória cultural. Para a autora, o conhecimento também é transmitido por aquilo que denomina repertório: práticas corporais, rituais, gestos, ações e performances que permanecem vivos porque são continuamente realizados pelos corpos. Vista a Camisa opera exatamente nessa tensão entre arquivo e repertório. As camisas constituem um arquivo material. Elas guardam inscrições, datas, imagens e vestígios de dezenas de espetáculos realizados pela ETDUFPA. Contudo, enquanto permanecem estendidas no varal, são apenas documentos silenciosos de uma história teatral. É no momento em que passam para o corpo do participante que deixam de ser apenas arquivo e tornam-se repertório. A memória deixa de estar guardada no tecido e passa a ser vivida, atualizada e compartilhada pelo corpo presente. Nesse sentido, o corpo assume o papel de arquivo vivo. Para Taylor, o corpo é um lugar de transmissão de saberes que escapam à escrita. Vestir a camisa significa carregar consigo não apenas uma identidade institucional, mas uma prática coletiva de formação artística construída durante décadas. O participante não interpreta um personagem; ele performa sua condição de pertencente a uma comunidade teatral. O corpo vestido torna-se testemunho da continuidade de uma história que não se encerra com a aposentadoria de uma professora nem com o término de um espetáculo. A escolha do espaço também é significativa. O pátio da ETDUFPA deixa de ser um espaço de circulação cotidiana para transformar-se em território performativo. O varal rompe com a lógica museológica da exposição estática. As camisas não são preservadas atrás de vitrines nem protegidas pelo distanciamento contemplativo. Pelo contrário, elas existem para serem tocadas, retiradas, vestidas e levadas. O patrimônio da escola deixa de ser objeto de conservação para tornar-se matéria de circulação. Taylor afirma que a performance produz conhecimento justamente porque acontece entre corpos. Em Vista a Camisa, esse conhecimento emerge do encontro. Cada participante ativa narrativas diferentes ao reconhecer determinada montagem, recordar um processo de criação ou escutar as histórias de quem viveu aqueles espetáculos. O conhecimento não está concentrado em legendas explicativas, mas nas conversas, nos afetos e nas lembranças compartilhadas durante a ação. A performance também desloca a noção de autoria. Embora concebida por Karine Jansen, sua realização depende da participação do outro. A obra só se completa quando alguém aceita vestir uma camisa. O gesto autoral transforma-se em prática comunitária. Essa característica aproxima a ação da compreensão de Taylor sobre a performance como produção coletiva de memória. A memória não pertence exclusivamente ao artista; ela é continuamente reconstruída por aqueles que a incorporam. Outro aspecto fundamental da obra é sua dimensão política. Vestir a camisa significa, na cultura brasileira, assumir compromisso, defender uma causa, reconhecer-se como parte de um coletivo. A performance ressignifica essa expressão popular ao vinculá-la ao teatro público. Vestir a camisa da ETDUFPA é afirmar a importância da universidade pública, da formação artística e da cultura como direitos sociais. Em um contexto de sucessivos ataques às políticas culturais e à educação pública, o gesto cotidiano de vestir uma camiseta converte-se em ato de resistência. Essa dimensão política aproxima-se da leitura que Diana Taylor faz das performances latino-americanas. Para a autora, muitas ações performáticas surgem como formas de enfrentar apagamentos históricos, colonialismos e violências institucionais. Elas não apenas recordam o passado; disputam as narrativas sobre quem merece ser lembrado. Vista a Camisa reivindica a memória de milhares de estudantes, artistas e trabalhadores que construíram a história do teatro amazônico dentro de uma universidade pública. Há ainda uma importante reflexão sobre a efemeridade. O teatro é uma arte da presença. Cada espetáculo desaparece no instante em que termina. As camisas tornam-se, portanto, um dos poucos vestígios materiais dessas experiências. Entretanto, a performance evita transformar esses vestígios em relíquias. Ao serem doadas aos participantes, elas voltam ao fluxo da vida cotidiana. Circularão pelas ruas, casas, ensaios e manifestações. A memória teatral abandona o espaço institucional para continuar existindo nos deslocamentos do corpo. Sob essa perspectiva, a ação produz uma inversão significativa da lógica do arquivo. Em vez de acumular objetos para impedir seu desaparecimento, a performance distribui esses objetos para ampliar sua capacidade de produzir memória. O patrimônio não é preservado pela imobilidade, mas pela circulação. Cada camisa retirada do varal amplia o repertório da comunidade teatral. A Amazônia também atravessa essa proposição. A ETDUFPA constitui um dos principais centros de formação artística da região Norte, e sua história está profundamente vinculada às práticas culturais amazônicas. Ao reunir camisas de espetáculos produzidos ao longo de três décadas, Vista a Camisa apresenta um panorama das múltiplas dramaturgias, pesquisas e estéticas que constituem o teatro amazônico contemporâneo. A performance transforma essa memória em presença, recusando que a produção artística da região permaneça invisibilizada pelos centros hegemônicos da cultura brasileira. Em Diana Taylor, o repertório não substitui o arquivo; ambos coexistem e se alimentam mutuamente. Vista a Camisa materializa essa relação. O tecido guarda o vestígio; o corpo produz a permanência. O objeto conserva; a performance transmite. A camisa torna-se documento apenas porque volta a ser corpo. Mais do que uma homenagem aos trinta anos de docência de Karine Jansen, a performance constitui uma reflexão sobre o próprio sentido da comunidade teatral. Vestir a camisa significa aceitar que o teatro não pertence a um indivíduo, mas a uma rede de relações construída entre gerações de artistas, professores, estudantes e espectadores. Ao final da ação, o varal esvazia-se. Mas esse esvaziamento não representa perda. Pelo contrário: indica que a memória encontrou novos corpos para continuar existindo. Assim, Vista a Camisa confirma uma das proposições centrais de Diana Taylor: a memória cultural não sobrevive apenas porque é arquivada, mas porque continua sendo performada. É no gesto de vestir, compartilhar e defender a camisa do teatro que a comunidade reafirma sua existência e transforma a lembrança em ação política, estética e coletiva.

REFERÊNCIAS

SCHECHNER, Richard. Performance Studies: an introduction. 4. ed. New York: Routledge, 2020. 

TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório: performance e memória cultural nas Américas. Tradução de Eliana Lourenço de Lima Reis. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. 

TAYLOR, Diana. Performance. Durham: Duke University Press, 2016. (Coleção Keywords). TURNER, Victor. Do ritual ao teatro: a seriedade humana da brincadeira. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015.

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