Censurados

Censurados

Performance de Odin Gabriel
Texto de Karine Jansen e Larissa Latif

O tema principal de Censurados é o nu artístico, comum no universo da arte, presente na maioria dos museus, galerias, escolas e movimentos artísticos, nos mais diversos estilos e tradições, seja no ocidente ou no oriente. A variação no tratamento do tema se dá conforme os padrões morais e estéticos da época e do lugar em que cada obra foi produzida. Um exemplo é o da Grécia antiga, onde um componente idealizador procurava o equilíbrio perfeito quando se retratava o corpo dos deuses: “os artistas gregos do sec. V e IV a.C. alcançaram um estilo de representação que transmite a ideia de equilíbrio e harmonia” (CORK; FARTHING, 2012, p. 51).  Hoje, graças aos debates feministas, as mulheres reivindicam estar presentes nos museus como autoras e não apenas como modelos do nu artístico.

Duas obras especiais, contendo nu, mobilizaram Odin Gabriel para a sua performance: 

Wagner Schwartz utilizou a obra Bichos, de Lygia Clark, como indutor para a construção de La Bête. O performer carioca utilizava um dos bichos enquanto aguardava que o seu corpo nu fosse utilizado pelo público, com a mesma finalidade que Lygia idealizou ao construir a sua obra. A performance de Schwartz foi apresentada em variados locais, incluindo o Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, em 2017, onde a repercussão foi muito maior, após o registro de uma criança, interferindo na performance, ser veiculado nas redes sociais, acusando o artista de pedofilia. (GABRIEL, 2018)

Em La Bête, o performer manipula um objeto de plástico e se apresenta nu. Em seguida, ele próprio se torna o bicho, o objeto manipulável, à disposição dos apreciadores da obra, para que experienciem o corpo-objeto. A presença de uma criança entre o público num dos dias do experimento artístico alterou totalmente o rumo do projeto. Schwartz sofreu o que ele chama de um “linchamento nas redes sociais” (SCHWARTZ, 2018) e o Ministério Público abriu inquérito sobre o ocorrido no Museu de Arte Moderna. 

A segunda obra motivadora para Odin Gabriel, foi a performance Melindrosa, de Ana Luiza Santos, apresentada nas ruas do centro do Rio de Janeiro, em 2014:

Ana Luiza Santos caminha pelo centro do Rio de Janeiro com a Performance Melindrosa, onde utiliza um vestido de notas de 10 reais. Em poucos segundos, a performer está completamente nua. Ninguém ali se preocupou com o atentado ao pudor. (GABRIEL, 2018)

No entender de Gabriel, “as pessoas buscavam apenas ganhar mais 10 reais, a performer poderia ser presa por estar nua na rua, no centro da cidade, e mesmo assim, ninguém se opôs” (Gabriel, 2018).

Levanta-se aqui um questionamento a respeito das diferenças no tratamento dado a essas duas performances, fazendo notar as contradições quanto aos os espaços e corpos que devem ser controlados e onde e como se dá esse controle. Refletindo sobre a censura aplicada na galeria, justificada oficialmente pela necessidade de proteção à criança, contraposta à a aparente liberdade do corpo desnudado no espaço público, Gabriel pergunta:  

Todo corpo nu necessariamente possui esse caráter de sexualidade? As crianças nas suas casas não têm contato com corpos nus de seus progenitores? Existe maldade construída nesse olhar das crianças? Não negamos a pedofilia, esse mal avassalador que acomete o país, mas como proteger nossas crianças educando-as para construir um olhar pecaminoso para o corpo? (GABRIEL, 2018)

Podemos indagar ainda: Será um corpo feminino desnudado em público e pelo público, na rua, mais aceitável socialmente do que um corpo masculino tocado em público, no interior de um museu? – os exemplos de nu artístico feminino nos museus são muito mais abundantes que os de nu masculino, além da presença constante de corpos femininos erotizados nas formas contemporâneas de publicidade, no cinema, na TV etc.  Uma criança tocar um corpo masculino, manipulá-lo num experimento artístico, segundo regras prévias e claras, num ambiente controlado e na presença da responsável legal, será mais reprovável ou perigoso do que desnudar-se coletivamente e de forma espontânea, sem indutores prévios ou acordos estabelecidos, o corpo de uma mulher em plena rua? O corpo masculino é compreendido socialmente como ameaçador, enquanto o corpo feminino é visto como objeto de violência socialmente consentida? A construção simbólica do corpo nu como algo reprovável e intocável será um dispositivo eficaz para uma pedagogia anti-pedofilia? Existe objetificação sexual do corpo construída já no olhar das crianças? A arte, para além da arte que tematiza o corpo nu, sofre um processo de demonização no contexto da escalada conservadora por que passa a sociedade brasileira contemporânea? Essa demonização despertará o fantasma da censura?

Contudo, o que definitivamente mobilizou Odin Gabriel para construir a performance Censurados, foi o fato de que a professora Karine Jansen, na disciplina de Performance, no ano de 2018, instruiu a turma para que os trabalhos que contivessem nu artístico fossem realizados em sala de aula e não nos espaços externos da Escola, em função da presença de crianças na instituição.

A performance durou três dias, sendo apresentada quatro horas por dia, ou seja, doze horas de Censurados! Para além desse tempo real, existe em Censurados um tempo simbólico, neste caso revelado na reinstauração no espaço atual de um tempo passado, por meio do uso performativo do corpo e dos objetos que o modificam.  A palavra censura não é mais usada formalmente pelos órgãos oficiais, o que temos agora é o termo “desaconselhável para menores de tal idade”. A censura está historicamente ligada à cultura do regime militar brasileiro que durou 25 anos entre 1964-1989. Fundamentada no AI-5, a censura militar foi devastadora tanto para os meios de comunicação como para as artes brasileiras, controlando e perseguindo os fazedores de cultura do País. A palavra Censurados alude consciente e inconscientemente a esse projeto ditatorial.

No primeiro dia de apresentação, numa caixa de papelão aberta na tampa e no fundo, pintada de preto, Odin escreveu com tinta branca a palavra CENSURA. Sustentada nos ombros com um barbante de algodão, a caixa compunha uma espécie de tarja preta tridimensional, feita para vestir e ocultar toda a região do baixo abdômen, cobrindo a genitália e as nádegas de Odin, enquanto o torso permanecia à mostra. “Escolhi o barbante fino e frágil para representar os argumentos frágeis e questionáveis dos censores”, afirma o performer (GABRIEL, 2020).

Com o corpo nu por baixo da caixa-tarja preta com a palavra CENSURA, o performer andava pela Escola, observava as demais performances, era observado. Um turbilhão de sensações passava por seu corpo: “no primeiro dia foi difícil, eu tava apavorado, eu tava pelado, distante das pessoas, queria grudar nas paredes. Alguém me disse que aquilo não era performance, era uma embromação, que eu não tinha nenhuma reflexão sobre o assunto, enfim depois tudo isso passou…” (GABRIEL, 2020).

No segundo dia, houve algumas alterações técnicas e a adesão de novos participantes: 

eu confeccionei as tarjas pretas com papel cartão, o que significaria a fragilidade dos critérios do censor, a mobilidade do papel. O Maurício Franco me ajudou na confecção, e assim eu disse para os colegas da minha turma – quem quiser, tira a roupa e põe a tarja! (GABRIEL, 2020). 

Aderiram ao trabalho Alyce Cardoso, Ingrid Gomes e Wagner Guimarães e a palavra escrita nas novas caixas-tarjas passou a ser CENSURADO.

No terceiro e último dia, todos os quatro já integrados, a performance se manteve e novas caixas-tarjas foram postas à disposição para quem mais quisesse se juntar à apresentação.  Alice Maria, Celso Cabral, Lívia Oliveira e Matheus Gomes participaram, assim, do desenvolvimento final do trabalho. Havia uma regra óbvia: por baixo da caixa-tarja preta, era necessário estar nu. Mas Odin abriu exceções, pois algumas meninas estavam menstruadas naquele dia e acharam melhor estar com os absorventes externos. Ainda outra exceção foi José, o bebê de 1 ano, filho de Sidiane Nunes, também aluna da classe, que deveria estar de fraldas, pois poderia urinar nas pessoas.

Nesse último dia, a primeira caixa-tarja, com o dizer “CENSURA” está agora disposta de forma rodante pela Escola. Assim como os censurados a censura caminha, ela busca novas “infrações”, fechada, como um grande mistério, ela busca um momento de encontro com os, agora 8, censurados. Como culminância final da apresentação, todos os participantes fazem um grande círculo em volta da CENSURA, e a rasgam. Rasgam a censura que os veste, a censura que os cerca. Utilizam bolas, balões e glitter para mostrar que um corpo nu não precisa ser sexualizado sempre. Brincam por diversos minutos, e é permitido a cada censurado mostrar algo à sua escolha. Alguns discursam, outros cantam ou brincam (GABRIEL, 2018).

E, assim, em meio a uma roda de brincadeira a tarja dos censurados foi rasgada, deixando os corpos nus e brincantes no estacionamento da Escola de Teatro e Dança da UFPA, performando um mundo livre da pedofilia, de censores e de falso moralismo. E a professora, desde então, não tem mais critérios de local para o nu artístico.

REFERÊNCIAS

BRUM, Eliane. Fui morto na internet como se fosse um zumbi da série The Walking Dead. El País. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/12/opinion/1518444964_080093.html. Acesso em 07/06/2020.

BRASIL. Decreto-Lei Nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 31 de dez. de 1940. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-2848-7-dezembro -1940-412868-publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso em 14/06/2018.

FARTHING, Stephen; CORK, Richard. Tudo sobre Arte. os movimentos e as artes mais importantes do mundo, editora Sextante. 2012.

GABRIEL, Odin. Entrevista concedida a Karine Jansen em 07.06.2020. Não publicado.

GABRIEL, Odin. Memorial da performance Censurados 2018. Não publicado.

MONTEIRO, João. Sobre o nu, sobre nós. Obviousmag. Disponível em: http://obviousmag.org/enquanto_isso/2015/08/sobre-o-nu-sobre-nos.html. Acessado em: 14/06/2018. 

SANTOS, Ana Luiza. Melindrosa. Ana Luisa Santos. Disponível em: https://anasantosnovo.com/MELINDROSA-1. Acessado em 07/06/2020.

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