Epiderme Reminiscente

Epiderme Reminiscente

Performance de Thalia Santos
Texto de Cláudia Gomes, Thalia Santos e Larissa Latif

Em Belém, do Pará, numa quarta-feira, num ambiente “frio” e sombrio, Thalia Santos está sob um foco de luz deitada em uma mesa, totalmente nua e aparentemente ferida, emaranhada por arames farpados que penetram na sua pele. Trata-se da sua performance Epiderme Reminiscente.

O lugar da apresentação que descrevemos é a sala 5 da Escola de Teatro de Dança da Universidade Federal do Pará. Epiderme Reminiscente foi realizada pela primeira vez nessa sala, como um requisito da disciplina Performance, sob orientação da professora Karine Jansen, e, posteriomente, pelo menos mais cinco vezes na mesma instituição. Foi também apresentada no Encontro Nacional de Artes (ENEARTE) em João Pessoa, na Paraíba. 

As regras da performance são: uma sala escura onde podem entrar apenas três pessoas por vez. Uma única vez houve exceção, pois, todos os espectadores que aguardavam pra assistir entraram só de uma vez na sala, deixando-a lotada. Não é permitido fotografar ou filmar, mas caso se sinta à vontade, o espectador pode intervir. Por diversas vezes, o arame foi arrancado do corpo da performer, e ela recebeu abraços palavras de afeto e consolo. Cada apresentação dura entre uma hora e uma hora e meia.

O roteiro da performance tem dois momentos ácidos. No primeiro, é reproduzida a gravação da voz de um homem adulto falando a uma menina. Muitas frases desconexas e constrangedoras são audíveis e remetem a um abuso sexual infantil, como: “senta aqui no colo do titio”, “que bucetinha gostosa”. No segundo momento, o corpo de Thalia é eviscerado. A performer revela a sua dor em contrações e líquidos que escorrem pelo seu corpo. Podemos ver/sentir as suas emoções angustiantes (medo, terror, raiva…) impregnadas no seu corpo ali exposto. O áudio e as reações dela provocam revolta/raiva/revolta/comoção do público presente. 

Não há possibilidade de fuga, Thalia está simbolicamente amarrada com arames farpados (utilizados para ferir e matar animais não humanos que tentam fugir). O arame representa o castigo, a moeda de troca do abusador. 

Thalia remexeu em algo íntimo, pessoal, vergonhoso (para muitas mulheres), mas foi a partir da performance que ela conseguiu um salvamento de si mesma e de outras mulheres (irmã, mãe, prima, amiga…todas as mulheres do mundo), insurgindo-se contra a sociedade machista, opressora, abusadora dos humanos mais frágeis, nesse caso uma criança (menina negra). Essa transformação a fez mudar de casa (de vida) e empoderar-se na defesa de causas feministas. Como afirma a teórica Simone de Beauvoir, “Não se trata de abolir nela as contingências e as misérias da condição humana e sim de lhe dar os meios de superá-las” (BEAUVOIR, 1970, p. 496).

Segundo Thalia Santos, Epiderme Reminiscente precisava ser “um grito de libertação, um grito em meio a tantos anos de silenciamento”. Foi a primeira forma de expressar e expurgar todo sentimento de repúdio e raiva, um expurgo que por muitos anos lhe foi negados, diante de “um crime tão horrível que acontecesse principalmente com crianças negras, praticado por pessoas próximas” (SANTOS, 2018).

O áudio que reproduz as frases ouvidas pela performer durante os anos em que sofreu abuso na infância e o arame que envolve e fere o seu corpo na performance, simbolizam justamente o tempo durante o qual ela permaneceu presa a essa história, sem poder contá-la.

O tempo da performance artística é um tempo extracotidiano, aproxima-se do tempo ritual, um tempo simbólico em que presente e passado podem se misturar e adquirir sentidos criados coletivamente. Em Epiderme Reminiscente, o espectador, no presente, tem acesso ao passado de Thalia, por ela rememorado, ao ver e tocar seu corpo envolto em arame farpado, ouvir os sons e transitar no espaço da performance. No entanto, ao mesmo tempo, pode vê-la e senti-la não mais apenas como a criança abusada e indefesa que foi, mas também como a mulher que dá o seu grito de liberdade e como a artista que reelabora sua experiência de vida através da sua obra. Esta, é ao mesmo tempo relato de um percurso e parte dele. 

A artista afirma que todas as reações e intervenções do público contribuíram para as suas curas internas e crescimento pessoal. Cada apresentação, diz ela, foi surpreendente e chocante, principalmente, porque, entre os espectadores, os homens com quem a performer tinha algum tipo de relação próxima, ao final da performance, ficavam distantes, como se receassem tocar Thalia novamente. Já as mulheres presentes, “sempre foram incríveis durante e depois, sempre esperavam com abraços e palavras de conforto, porém, pareciam destruídas psicologicamente, pois, esse assunto faz parte de suas vivências (de seus corpos), seja por experiência próxima ou por conhecer alguma mulher que passou por isso” (SANTOS, 2018). Thalia indaga: “Os homens não falam sobre isso entre si, mas como podem existir tantos abusadores que as mulheres conhecem e os homens não?” (SANTOS, 2018).

Finalizamos citando a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (2017, p. 31) “o autor me acusava de ser ‘raivosa’, como se eu tivesse de me envergonhar por sentir “raiva”. Claro que tenho raiva. Tenho raiva do racismo. Tenho raiva do sexismo…”.

REFERÊNCIAS

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017

BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo. a experiência vivida. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.

SANTOS, Thalia. Memorial da performance Epiderme Reminiscente. Não publicado. 

1 Comentário

  1. Christian Ro

    Eu que ainda nem vi a performance, porém ao ler é como se lá estivesse.

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