A Flor Manifesto

A Flor Manifesto

Performance de Leandro Haick
Filmagem de Fabíola Pena e Artur Neves
Fotografia e edição de vídeo por Mara Tavares
Apoio de Wallace Horst e José Sena
Texto de Danielle Cascaes e Leandro Haick

Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas, 
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Os primeiros versos do poema “Os Estatutos do Homem”, do amazonense Thiago de Mello, chegam aos ouvidos de quem assiste a videoperformance intitulada “A Flor Manifesto”, feita a partir do registro da performance urbana de mesmo nome, que aconteceu nas ruas da cidade de Belém, em maio de 2011. Os versos acompanham a imagem de um homem, nu, descalço, trajando apenas flores de papel em volta do seu torso, percorrendo o circuito “sagrado” do Círio de Nazaré, a maior procissão católica do mundo.

Mas o que seria trabalhar pela vida, e como isso está relacionado ao corpo que performa? Se fizermos uma breve pesquisa sobre o autor do poema, descobriremos que Thiago de Mello escreveu-o quando estava exilado no Chile, durante a Ditadura Militar. Os versos propõem estatutos de um mundo ideal que estava muito distante da realidade vivida pelo poeta. Apesar de A Flor Manifesto ter acontecido mais de vinte anos após o fim do período ditatorial, este mundo ideal ainda parecia estar distante da realidade. Hoje, em 2020, parece estar ainda mais.

Flor Manifesto toma forma de duas maneiras: a performance urbana, que aconteceu em maio de 2011 e a videoperformance. Apesar de tratarem do mesmo assunto, alguns signos se modificam, dependendo do suporte. A maior diferença refere-se ao texto verbal fixo (PEREIRA apud JANSEN, 2004), pois no vídeo, temos o poema de Thiago de Mello na íntegra, narrado pelo mesmo. Já durante a performance urbana, o poema estava presente apenas nas flores de papel, e somente aqueles que pegaram-nas das mãos do performer puderam ter acesso a partes dele. Para chegar até o poema, o público deveria permitir-se chegar perto do performer, que lhes perguntava “Você aceita o meu manifesto?”, sendo este o texto fixo do ato performático.

Ao aceitar o manifesto do performer, o espectador recebia uma das pequenas flores de papel contendo trechos do poema de Thiago de Mello, que compunham a única indumentária do performer. Estas flores possuem valores especiais atribuídos (SCHECHNER apud JANSEN, 2004), pois aquele pedaço de papel assume um valor diferente do seu valor cotidiano. Ao aceitar a flor, o espectador-transeunte está se dispondo a ser provocado pela ação-manifesto, gozando do direito à dúvida, da vertigem do choque, a viver o momento de carga política e emocional que emana daquele Corpo Kamikase: um corpo que renuncia à mentira da culpa e suas moralidades cristãs, que goza alto com a dúvida e com a possibilidade do erro, que dança as suas polifonias agudas, que caga as suas transgressões férteis, que festeja a gritaria das suas (re)existências. Aquele que está na contramão. Que se faz controverso. Que se coloca nu. Uma bomba nas cabeças prontas.

O performer relata que apenas sete das setenta flores de papel foram entregues ao público, pois a maioria das pessoas não queria chegar perto, desviando o caminho para não cruzarem com ele. “As pessoas me viam como indigente, como um louco. Algumas tinham muita raiva, outras tinham medo, outras repulsa. O falo é colocado como uma arma, um signo de poder. O corpo nu na rua também simboliza a ruína, simultaneamente podendo vir a celebrar uma ode a um estado de “liberdade”, confrontando o pensamento colonial de o que pode o corpo.” (HAICK, 2020). Esta realidade pode ser vista na videoperformance, pois conseguimos ver as reações dos espectadores-transeuntes ao se depararem com a performance.

Os atravessamentos que ocorreram durante o ato performático foram diversos; houve quem desviasse o caminho para não cruzar com aquela imagem ambulante-indigesta. Todas são reações causadas pelo ato performático são legítimas, inclusive as negativas. Assim, provocando atravessamentos mútuos entre quem está performando e o espectador-transeunte. Os atravessamentos que o próprio artista experienciou, como a violência implícita no olhar de alguns espectadores, o asfalto quente do sol do meio-dia lhe queimando os pés, que, ao final, estavam em carne viva, modificaram o ambiente cotidiano e tornou-o especial, segundo o conceito de Schechner apud Jansen, 2004.

Alterar o ambiente, atrapalhando o tráfego, questionar óbvio, era o intuito do performer, mas mais que isso, ele queria instaurar o desequilíbrio do pensamento colonial, normativo e binário, provocar o choque, o vômito, a raiva daquilo que não se quer entender, do medo do desconhecido, da fuga do não querer enxergar o reflexo de si mesmo, do que torna o corpo desnudado perigoso. Estes questionamentos atribuíram ao performer a qualidade auto assertiva (SCHECHNER apud JANSEN, 2004). O que pode o corpo? O performer foi movido por inquietações que colocam o seu devir em uma perspectiva marginal que impõe este corpo ao não lugar. O texto de Thiago de Mello pareceu ser capaz de traduzir parte dessa dor.

Todos os dias as pessoas estão dizendo que nós não podemos ocupar os espaços. Nós precisamos aceitar a ideia violenta e perversa do não-lugar. (…) Por que eu não posso estar nesses espaços? Esse percurso da santa que fala sobre santidade, castidade e anulação em prol da estrutura “sagrada” do patriarcado, o mito de uma mulher que foi impedida de decidir sobre a sua própria vida. E o que é a instituição religiosa se não o Estado? E quando o Estado te diz que o seu corpo é de domínio dele, que você não tem autonomia, nem espaço, nem voz, que os teus desejos não importam, você vai ser castrado. Pensando nisso, eu concluí que queria ocupar esse espaço para discutir esse corpo idealizado que também é um corpo possível com as suas subjetividades. (HAICK, 2020).

Essas inquietações levaram o performer a fazer uma trilogia de performances que tratam sobre o corpo como reafirmação identitária em um local sagrado, onde A Flor Manifesto é a primeira. Todas as três se deram durante ou no trajeto do Círio de Nazaré. Muitas vezes, estas performances são vistas como atos de profanidade em meio a algo sagrado. Porém, na cultura paraense, atos sagrados e profanos costumam se misturar, tornando-se coisa outra, como uma quimera. São muitas cabeças no mesmo corpo, que no fim, não é nem um, nem outro, mas os dois. É tudo ao mesmo tempo.

Quando o performer coloca o seu corpo em local sagrado, ele está afirmando e indagando muitas coisas. Afirma identidade, abraça o sagrado e o profano no próprio corpo, expõe-se a grandes perigos e faz enormes sacrifícios enquanto joga a sua existência na cara de uma população hipócrita. O performer é um indivíduo apaixonado, inclinado a acreditar que pode mover as coisas, mesmo sabendo que não é capaz de mudá-las, mas acredita ser capaz de despertar a si mesmo e o outro. O estado psíquico e corporal de Haick durante a performance em questão, aproxima-se do conceito de Corpo Devoto, de Karine Jansen: 

…refere-se a um modo de ser: dedicado, sacrificado e emocionado. Este modo de ser é construído por vários caminhos, indutores e estratégias estabelecidas pelos criadores da cena e percorrida pelos atores/performers. (JANSEN, 2004, p. 10).

O mais poético de tudo isto, é saber que o performer jamais acreditou que seria capaz de finalizar o percurso na Praça Santuário de Nazaré. Deduziu que seria preso ou fisicamente agredido durante o trajeto, mas não foi. Talvez a violência tenha sido ainda pior do que as duas hipóteses, pois criou feridas para além da carne. Apesar de as possibilidades serem baixas, ele conseguiu completar o trajeto, desafiando a si mesmo e todos os que o viram. E é assim que os corpos marginalizados vão seguindo: sobrevivendo para além do esperado, confrontando e modificando o espaço em sua volta. 

Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

REFERÊNCIAS

HAICK, Leandro. Entrevista concedida a Danielle Cascaes e Karine Jansen em 02.07.2020. Não publicado.

JANSEN, Karine. Belém Apaixonada: a construção do corpo devoto nos processos performáticos das Paixões de Cristo em Belém do Pará. 2004. Dissertação (Mestrado em Artes Cênicas) – Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, UFBA, 2004.

MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

SCHECHNER, Richard. Public domain: Essays on the theatre. Indianópolis: Bobs-Merrill, 1968.

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