C/Sem Passos

C/Sem Passos

Performance de Paulo Ricardo Nascimento
Imagens do acervo do artista
Texto de Danielle Cascaes

C/Sem Passos, de Paulo Ricardo Nascimento foi realizada na disciplina Performance do curso de Licenciatura Plena em Teatro da Escola de Teatro e Dança da UFPA/ ETDUFPA, em 11 de junho de 2011. A performance consiste em duas partes, sendo a primeira na rua e a segunda em sala de aula. Durante a primeira parte, o performer caminha cem passos, saindo da ETDUFPA e seguindo pela Rua Cônego Jerônimo Pimentel. Em mãos, o performer possuía cem folhas de papel A4 branco. Antes de cada novo passo, uma nova folha era depositada no chão onde ele iria pisar. 

A vídeo performance acompanha um texto lido em off. Ao final de cada lida, o texto se repetia em uma velocidade mais acelerada que a anterior, chegando a acelerar duas vezes em relação à primeira vez que foi lido. O texto é de autoria do próprio performer, onde é discutido como cada passo que damos, estamos indo em direção ao futuro, deixando o passado para trás:

Cem passos.

O passo é elemento básico do deslocamento do ser humano na quase totalidade da vida.

Cada passo um passado consumado. Dar um passo é torna-lo passado. O passo trás em si o passado em potência. Cada passo uma direção, um destino. Não há retorno ao passo dado. Será sempre um novo passo, sempre o próximo. Só há próximo passo.

Os passos são invisíveis e definitivos, não há registros visíveis aos passos dados pelas ruas, nas calçadas, nos asfaltos. Milhões de passos sem história. Milhões de histórias cujos passos são metáforas de um destino seguida de uma escolha feita.

Cem passos. Do primeiro passo ao centésimo caminhamos na rua, há um lapso do tempo quase sempre imperceptível e um curto espaço percorrido. É quase nada. Passos inexistentes.

Sem passos.

NASCIMENTO, Paulo Ricardo. 2011.

Considerando as características da performance de Nascimento, podemos encaixá-la em diversas categorizações indicadas por Schechner e Pereira, como ordenação especial de tempo, regras e, no caso da primeira parte, texto verbal fixo: “A presença de texto verbal fixo como qualidade da performance estaria, neste sentido, facilitando a análise de diferentes formatos teatrais.” (PEREIRA apud JANSEN, 2005). 

Em conversa com Nascimento, o performer revelou que a inspiração para a performance partiu de sua relação interpessoal com seus colegas de classe na graduação. Ao entrar para a licenciatura em teatro, Nascimento percebeu que muitos de seus colegas não possuíam muita experiência com teatro, alguns sequer haviam feito teatro antes de ingressar na universidade. Esta percepção foi um choque, pois ele estava com 42 anos então, fazendo teatro desde os 14. Sentia como se tivesse percorrido um longo caminho até chegar a graduação, dado dezenas de passos… cem passos, enquanto alguns de seus colegas não haviam dado nenhum. Sem passos. Que tipo de relação artística é estabelecida entre quem tem mais passos andados que o outro? Este questionamento gerou a segunda parte da performance, realizada em sala de aula.

Utilizando as cem folhas de papéis A4 que foram pisadas na primeira parte da performance, Nascimento criou um caminho de cem passos dentro da sala de aula. Ali, pôde conversar com seus colegas sobre suas diferentes experiências de vida com a arte, enquanto um andava sobre os passos do outro. Seus colegas de turma pisavam nas folhas em que ele havia pisado, dando os mesmos cem passos, mesmo não possuindo passos na própria carreira. A segunda parte da performance ganha uma nova categoria, tornando-se grupal ou performada por grupo: “É a qualidade da performance, cuja realização exigiria uma prática grupal, um fazer no coletivo. Diversas performances exigem este formato, em especial o teatro.” (SCHECHNER apud JANSEN, 2005).

O curioso é que, segundo relatos de Nascimento, o performer imaginou que cem passos percorreriam uma distância muito maior do que a que percorreram. Ele deu cem passos partindo de diversos locais diferentes, como do ponto de ônibus até a sua casa, sempre percorrendo curtas distâncias. Ao dar o primeiro passo em frente a Escola de Teatro e Dança da UFPA, o centésimo foi dado em frente ao Teatro Universitário Claudio Barradas, ainda dentro do território da ETDUFPA.

Esta percepção levou performer e colegas a refletirem sobre o valor de dar cem passos, ou de ser sem passos. Afinal, todos estavam no mesmo local, dividindo experiências semelhantes. Esta percepção foi importante para que aquele que tinha uma trajetória mais longa no teatro pudesse perceber que, apesar disso, não era melhor do que quem não possuía nenhuma. O mesmo se deu no caminho inverso, pois aqueles com pouca experiência tiveram sua trajetória validada. A performance realizada em sala foi essencial para isso, para que todos pudessem ter a compreensão de que experiência gera sabedoria, não status. A experiência do outro, ou a falta de sua própria, não valida ou desvalida ninguém; pelo contrário, pode se tornar um elo que fortalece ambos os lados. C/Sem Passos é um local de encontro entre quem já possui uma trajetória longa e quem está começando.

REFERÊNCIAS

JANSEN, Karine. Belém Apaixonada: a construção do corpo devoto nos processos performáticos das Paixões de Cristo em Belém do Pará. 2004. Dissertação (Mestrado em Artes Cênicas) – Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, UFBA, 2004.

SCHECHNER, Richard. Public domain: Essays on the theatre. Indianópolis: Bobs-Merrill, 1968.

NASCIMENTO, Paulo Ricardo. Entrevista concedida a Danielle Cascaes em 17.02.2022. Não publicado.

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